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A Esfinge e o Inconsciente

Um antigo mito egípcio nos conta sobre uma Esfinge que devoraria os transeuntes que não conseguissem decifrar seu enigma desafiador. Essa parece ser uma boa analogia com nosso relacionamento com o inconsciente. Se não formos capazes de decifrar a linguagem simbólica do nosso inconsciente, ele nos devorará, no sentido de que assumirá o controle de nosso destino.

Desejar uma vida plena e relacionamentos harmoniosos e experimentar interações problemáticas frequentes pode ser muito frustrante. Mas todos os seres humanos afetam constantemente uns aos outros em seus níveis inconscientes. As comunicações que desconhecemos determinam o relacionamento.

 

Qualquer objetivo que conscientemente desejamos e que, no entanto, não atingimos, é a prova de que uma “corrente-do-não” não detectada está em ação, superando nosso desejo consciente. Para mudar a maneira como nossa vida e nossos relacionamentos se desdobram, precisamos dominar a linguagem do inconsciente para identificar a “corrente-do-não” que impede que os desejos acalentados se manifestem. Devemos trazer esse “não” ao nível consciente, onde podemos enfraquecê-lo.

 

Para manifestarmos uma vida plena e relacionamentos harmoniosos, não é suficiente identificar crenças arraigadas e concepções errôneas imaturas. Tampouco é suficiente descobrir como e por que elas surgiram durante nossa infância. Esse é um trabalho importante, mas é apenas um passo. Simplesmente encontrar os equívocos e as conclusões errôneas não mudará automaticamente nossas reações emocionais mais íntimas e sutis.

 

Podemos estar certos de que existe uma corrente-do-não se a frustração persistir em nossa vida, apesar de já termos encontrado equívocos e conclusões errôneas. Podemos também ter certeza sobre sua existência, se estivermos desesperados com a nossa corrente do sim; se temermos que o objetivo nunca será alcançado; se acreditarmos que nossa vida será  desanimadora sem isso.

Quando nos conscientizamos do funcionamento constante da corrente-do-não, encontramos alívio da falta de esperança; e a saída se torna visível. Passamos a entender por que a nossa vida não mudou, apesar do amplo reconhecimento de equívocos e conclusões infantis. Detectamos sentimentos destrutivos a serviço da corrente-do-não: medo, culpa, raiva, frustração, hostilidade, etc. Se esses sentimentos continuarem a arder, poderemos ser tentados a camuflá-los, a tentar explicá-los atribuindo-os a provocações aparentemente reais, e projetando-os “com sucesso” nos outros. Descobrir todos esses mecanismos é aprender a linguagem do inconsciente.

 

Não importa quantas descobertas façamos sobre equívocos e crenças falsas, nada realmente mudará em nossa vida até que observemos o corrente-do-não em ação, diariamente, de novo e de novo, até aprendermos a interpretar suas mensagens e decifrar seus códigos.

 

Para que a corrente do sim se expresse em qualquer área de nossa vida e personalidade, todo o nosso ser deve estar como uma única peça, uma totalidade. Nossa consciência não pode ser dividida, com diferentes níveis expressando diferentes objetivos, opiniões, conceitos e emoções. A técnica de revisão diária do Pathwork© (*) é imensamente útil nesse sentido. O escrutínio de nossas reações emocionais deve ser profundo e amplo.

 

Quando existe um forte desejo não realizado e sua realização parece desesperadamente urgente, podemos estar certos de que a urgência prova a presença de uma corrente-do-não. O medo frenético de que a urgência desesperada não seja cumprida sempre anuncia um “não” escondido para a realização. A ausência desse não produzirá uma corrente tranquila e relaxada, sem um tom de desespero. Essa corrente-do-sim saudável quer a realização, está totalmente pronta para isso, e ainda assim é capaz de levar uma vida construtiva sem ela, independentemente de quão bem-vinda seria a realização.

 

À medida que progredimos na observação e compreensão de nossas sutis reações emocionais em nossos relacionamentos e como essa interação inconsciente ocorre, veremos que o que nos ameaça nos outros e nos torna tensos e defensivos pode ser observado com calma, da maneira como precisamos ter aprendido a fazer conosco mesmos.

 

Vamos aprender a interpretar nos outros o que um gesto, uma ênfase, uma expressão, uma ação, um enunciado, um músculo tenso significa, independentemente da própria pessoa ter consciência disso. Vamos ouvir, ver e perceber o que as outras pessoas realmente querem dizer, o que elas querem expressar apesar do seu disfarce, o que as governa por trás de suas atitudes e manifestações conscientes.

 

Saberemos o que o inconsciente delas diz, quando elas se comportam de tal e tal maneira. Quando alguém chega a este ponto, não terá mais nada a temer. Mas esse é um desenvolvimento orgânico, que não pode acontecer antes de termos percebido e compreendido como tais processos ocorrem em nós mesmos.

 

Quando descobrimos um certo medo da própria situação que desejamos e, consequentemente, uma atitude sutil e camuflada de rejeitá-la, é importante considerar que o medo pode estar baseado em uma premissa inteiramente ilusória e, portanto, ser desnecessário. O medo pode ser devido ao desejo infantil de não querer pagar o “preço” necessário relacionado à realização do objetivo. Esse “preço” poderia ser, por exemplo, assumir maior responsabilidade como resultado de uma almejada promoção no trabalho; ou a disposição para abandonar a rigidez e ajustar-se com flexibilidade às circunstâncias. A premissa ilusória também poderia ser um sentimento de não merecer essa felicidade. Pode ser qualquer outro motivo, ou uma combinação de todos eles.

 

Além das limitações impostas por nós mesmos ao livre fluxo da energia divina e benigna, nada impede uma vida rica e plena. Todas as ferramentas que precisamos estão disponíveis para nós, e só nós podemos usá-las.

 

Quando concepções errôneas de “não merecer” toda essa felicidade são encontradas, elas estão frequentemente ligadas a uma imagem de Deus distorcida, como a de uma fonte externa de punições e recompensas, dependendo das ações das pessoas. Falsas ideias a esse respeito enfraquecem nossa capacidade de desejar, impedindo-nos de emitir a consciência forte, clara e ininterrupta de desejar e merecer a experiência almejada. O equívoco de que lutar pela realização pessoal significa egoísmo e ganância é outro obstáculo a uma saudável corrente-do-sim.

 

Quando nossa mente inconsciente é um reflexo tranquilo e coerente de nossa percepção consciente, nossa capacidade de desejar está no seu melhor, com os obstáculos limitantes removidos e pronta para manifestar os objetivos que almejamos.

Quando descobrimos a persistência de um “não” sutil, mas claro, a respeito de uma situação desejada, um forte receio que não podemos explicar, e que só pode ser detectado examinando-o muito de perto, é da maior importância que não o questionemos, que não sejamos impacientes com nós mesmos, que não neguemos sua existência com a ilusão de que, ao fazê-lo, o medo irá embora. Isso nunca funciona! Em vez disso, devemos reconhecê-lo, aprofundá-lo na consciência e nos preparar para encontrar o caminho para mudá-lo.

 

Uma fonte adicional de ajuda é o método de falar sobre as coisas. Falar a respeito do que queremos, qual a nossa obstrução e a razão para a corrente-do-não tem um grande valor terapêutico. Quando conversamos com outra pessoa, as coisas tomam forma e ganham uma clareza que nos faltava quando apenas pensávamos a respeito, ainda que anotássemos nossas observações.

 

Além disso, para alguém profundamente envolvido em seu próprio problema, é muitas vezes impossível obter por si mesmo uma visão que um observador neutro pode apontar. Falar sobre o problema alivia a pressão; e isso libera uma energia valiosa. Quando deliberadamente contatamos nosso eu divino interior em busca de respostas e orientação, e liberamos a pressão falando abertamente sobre isso, algo é posto em movimento. Nós ganhamos uma nova perspectiva, e algo começa a mudar por dentro, antes mesmo de nos darmos conta.

 

Mas é preciso ter cuidado com a possibilidade de também precisarmos superar uma corrente-do-não contra o processo de auto-exposição. Onde quer que o problema resida, existe uma profunda vergonha. Qualquer que seja o equívoco, a imagem original, com suas falsas premissas e emoções negativas, isso causa profunda vergonha. O eu interior, sábio, sabe o que é necessário e sutilmente cutuca a personalidade externa; mas quando o contato íntimo com esse eu interior não está bem estabelecido, esse empurrãozinho é muitas vezes mal interpretado. A pressão acumulada da necessidade de falar é colocada em canais improdutivos, porque o pequeno ego teme e quer evitar – muitas vezes inconscientemente – revelar a “vergonha”. Isso seria a corrente-do-não em ação. Quando a pressão para falar é aliviada de forma inadequada, a pessoa se concentra em assuntos que não estão relacionados à área pessoal problemática.

Gustavo Monteiro
Maio de 2019

 

Este artigo é baseado nos ensinamentos do Pathwork© (*), mais especificamente conforme apresentados nas palestras:

  • #124 A Linguagem do Inconsciente
  • #125 Transição do Corrente-do-não para a Corrente-do-sim

 

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